Atitudes para a humanização das relações escolares

Bruno Gomes de Melo

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A proposta deste texto não é ser um “manual” de como proceder nesta lenta retomada do período mais crítico da pandemia – mortes aos milhares, poucas informações sobre como nos proteger, ausência de vacinas – e nem se colocar em uma visão romantizada da educação, na qual o “amor pela profissão” resolve todos os problemas e dificuldades do ensino público. Entretanto, tal como o título desta revista, senti a necessidade de expressar este relato que se segue, muito mais como uma percepção, uma abertura para possíveis conversas sobre o tema, e como podemos encarar nossas práticas e os estudantes que atendemos a partir de uma diferente perspectiva, com vistas a nos aproximarmos de suas dificuldades, de suas qualidades e de suas vivências.

Sempre fui um professor que se apresentava com uma certa rigidez, com regras que deveriam ser seguidas, com atividades que já possuíam sua estruturação matemática – apesar de ser professor de história – pronta em planilhas, para ter uma avaliação “fria” sobre o percurso do aprendizado dos estudantes. Na imensa maioria das vezes tive o resultado esperado: as “médias” atingidas pelos alunos não se equiparavam aos momentos compartilhados nas aulas, e pouco tinha de retorno das alunas e dos alunos daquilo que estudávamos durante os bimestres. Além disso, a distância criada entre docente e discentes sempre me incomodou, por me colocar em um lugar inacessível, fazendo com que o conhecimento que estávamos compartilhando parecesse inatingível.

Eis que veio a pandemia, e todas as questões trazidas por ela – o afastamento da escola, as aulas remotas com os problemas de acesso que todos conhecemos, as atividades propostas em um ambiente “frio”, sem o “calor” da presença e interação do professor com os estudantes, entre outros problemas inerentes ou não à escola – amplificou um processo que já se dava lentamente em minhas reflexões sobre a minha prática. Lembro-me de uma reunião virtual com outros professores de história e a coordenação pedagógica da Diretoria Regional de Educação do Butantã, na zona oeste da cidade de São Paulo, região em que atuo, na qual estávamos discutindo sobre uma possível adequação curricular devido às questões da pandemia, quando um colega de outra unidade escolar disse que, naquele momento – meados de 2020 –, pouco importava essa discussão, mas sim saber se alunas e alunos estavam vivos, se suas famílias estavam bem, se a comunidade escolar precisava de ajuda. Aquilo me tocou forte e evidenciou a necessidade de uma mudança em minha prática na relação diária com alunas e alunos. O tempo que se seguiu de afastamento forçado gestou toda uma reflexão que estava contida sobre uma diferente atuação no dia a dia escolar, uma relação diferente com a forma e conteúdo das aulas e, fundamentalmente, uma interação mais humanizada com aquelas e aqueles que estariam sob minha responsabilidade em cada momento educacional.

Com o retorno às aulas presenciais em meados de 2021, era notável a ânsia de diversos estudantes não só pelas aulas, pelo acesso ao conhecimento “acadêmico”, mas também pela possibilidade de novamente interagir com a equipe docente, de se relacionar e se expressar intensamente em um ambiente acolhedor, principalmente após um período tão difícil em termos educacionais e, principalmente, emocionais. Assim, aos poucos passei a estabelecer minha relação com alunas e alunos de forma a transformá-la em uma interação mais alegre, mais humanizada. Conversas informais e brincadeiras dentro e fora de sala de aula, atividades com foco e estímulo à criatividade e o pleno desenvolvimento das capacidades artísticas dos alunos, com a constante interação do professor no apoio às questões tanto de conteúdo do componente curricular bem como no incentivo ao trabalho que estava sendo realizado – em termos emocionais e acadêmicos – passaram a ser minha forma de atuação.

Alunas e alunos notaram a mudança, e parte deles passaram a ver no professor um parceiro de caminhada, uma pessoa com a qual poderiam contar no apoio em seu percurso educacional, além de um adulto que se propõe a escutá-los e a recebê-los com leveza e carinho nos momentos de interação nos espaços educacionais. Entretanto, isso não invalida a manutenção da responsabilidade da parte do professor para com o conteúdo e para com os “aprendizes” em seu processo de inserção no mundo, inclusive em momentos de possíveis “broncas” a cada ação equivocada – de ambas as partes – dentro do ambiente escolar. Porém, agora, esta relação está sendo estabelecida sob as bases de uma interação mais humana, na qual o conteúdo acadêmico possui a mesma importância que a expressão dos sentimentos e o tratamento cordial, tanto entre o grupo de estudantes quanto destes com o professor.

Neste processo, foi incrível perceber como a participação de alunas e alunos nas atividades propostas foi ampliada, e como todos buscaram apresentar o melhor que podiam realizar. Independentemente do resultado alcançado, o aproveitamento dos momentos de produções proporcionou interações amplas entre professor e estudantes nas realizações dos trabalhos, na cooperação entre os grupos de alunas e alunos – dentro da mesma equipe de trabalho e entre integrantes de diferentes equipes – e na abertura ao pleno uso da criatividade discente na produção de seus trabalhos. 

O “problema” que surge aqui é a dificuldade em como “mensurar” esta nova relação dos estudantes com a escola e sua melhora no rendimento escolar, principalmente neste momento em que se discute como este período pandêmico trouxe para esta geração sequelas educacionais que se arrastarão por anos a fio. Alguns estudantes só estão restabelecendo contato com o aprendizado formal agora, neste início de 2022. Uma boa parte ainda sofre de questões emocionais deste período de incertezas que vivemos. E o período de afastamento físico do espaço escolar nos mostrou o quanto a educação voltada para resultados, privilegiando as notas e analisando grupos de alunas e alunos pelas “médias” atingidas se tornou sem sentido e promotora de um processo que mais afasta do que aproxima os estudantes de todo o potencial humano e educacional da escola. 

Está em nossas mãos reinserir nosso alunado no ambiente acadêmico de forma a modificar as previsões catastróficas que setores econômicos, muitos com interesses escusos, fazem acerca das questões pedagógicas que enfrentaremos como consequência da pandemia da covid-19. Longe de uma visão “Poliana” ou “heroica” da educação, tenho a percepção de que podemos ser o ponto inicial de um processo de médio a longo prazo no qual a relação discente com a escola pode ser mais positiva, de forma a modificar a sua interação com a escola. Dessa forma, ao compartilhar estas linhas, busco a reflexão sobre como nossa ação pedagógica e nossa relação com os alunos e alunas pode ser fundamental nesta etapa de retomada educacional. Será que podemos, tal como o colega na fatídica reunião citada anteriormente, focar nossa prática mais nas questões humanas de nossa relação com os estudantes, e deles com o conhecimento, de forma a apresentarmos um caminho mais agradável na relação de nossos “aprendizes” com o mundo? 

brunogomes@relatosescolares.com.br | + posts

Professor na rede municipal de ensino de São Paulo. Bacharel e Licenciado em História e Graduando em Filosofia.

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