A História do Brasil vista pelos alunos: fomentando o protagonismo estudantil

Bruno Gomes de Melo

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Alunos apresentando maquetes na aula de história.
Estudantes do 9º ano apresentando suas maquetes para estudantes do 7º ano. Foto: Arquivo pessoal.

Sou professor de História de uma Unidade Escolar da zona oeste da cidade de São Paulo desde setembro de 2008, na qual a ideia de projetos, de sequências didáticas e de maior interação entre os professores e o conteúdo de suas disciplinas são, com muito esforço da equipe, uma busca constante. E os alunos, em grande maioria durante todo este período, sempre se mostraram receptivos aos projetos apresentados pelo corpo docente. Com estes componentes, entendi que havia terreno propício para a realização de um projeto no qual os alunos pudessem aliar pesquisa, estudo, produção e apresentação de conteúdo com protagonismo em todo o processo, desde a escolha do tema até a forma de apresentação aos colegas da escola. Tal proposta, além de inspirada nas condições oferecidas pela própria Unidade Escolar, também tem como base as propostas de autonomia e protagonismo estudantil dos documentos orientadores da Secretaria Municipal de Educação do município de São Paulo, além da experiência inovadora vivida em algumas escolas da cidade de São Paulo que adotaram a metodologia de ensino surgida na famosa Escola da Ponte, de Portugal, na qual os alunos assumem as rédeas de seu processo de aprendizagem.

O projeto “História do Brasil vista pelos alunos” foi realizado no segundo semestre de 2019, com estudantes do 9º ano, por serem alunos que já possuíam uma prática de realização de atividades escolares nestes moldes propostos. O projeto foi iniciado na primeira semana de agosto e teve 15 semanas como período programado para a sua realização, com cinco objetivos principais: o protagonismo dos alunos durante todo o processo; a estruturação e realização de distintas etapas de “trabalho”, nos quais o professor tornou-se um orientador dos distintos projetos dos estudantes; realização de estudo pormenorizado da História do Brasil, como um meio de dar relevância ao estudo, reflexão e discussão de momentos, atores e temas importantes de nossa história; a utilização de diferentes meios para execução e apresentação dos trabalhos (maquetes, documentos, cartazes, vídeos, áudios entre outros); e a tentativa da criação de uma tradição de “apresentação final” na disciplina de História, nos moldes das Feiras de Ciências, realizadas anualmente na Unidade Escolar.

Alunos apresentando maquetes na aula de história.
Alunos apresentando maquetes na aula de história.

Apresentação final de trabalhos a colegas de outras turmas da escola. Foto: arquivo pessoal.

Na estruturação, tive em vista duas questões fundamentais na produção de conteúdo por parte dos alunos: a elaboração de uma apresentação de slides sobre os temas estudados, nos moldes de um “trabalho escrito”, pois desta forma o aluno poderia apresentar a pesquisa realizada sobre o tema, e o professor, quando necessário, efetuaria correções de rota; e a elaboração de um produto final a ser apresentado à comunidade escolar, tendo como público alvo os professores e alunos do ensino fundamental II da Unidade Escolar. A partir destes parâmetros, elaborei dez ações a serem realizadas, divididas em três etapas:

Preparação

1º Apresentação aos alunos do projeto de “trabalho virtual” e “produto final de estudo”, além de seu tema geral – a História do Brasil em seus diferentes períodos históricos (pré-história do Brasil, Brasil colonial, Brasil imperial e Brasil republicano);

2º Atribuição de um período histórico acima citado para cada aluno – a realização do trabalho foi individual.

Estudo, Produção e Interação

3º Estudo de conteúdo pelos alunos – a partir do livro didático e de pesquisas na internet – para escolha do tema específico dentro do período histórico indicado;

4º Aulas para orientações gerais aos alunos sobre os temas escolhidos: como estruturar o trabalho, ideias para elaborar os produtos finais, relações entre trabalhos de alunos diferentes, ajuda na delimitação da pesquisa e até ajuda na escolha de temas para alunos que não conseguiram fazê-lo sozinhos;

5º Pesquisa, elaboração e entrega, pelos alunos, da apresentação de slides sobre o tema específico escolhido;

6º Devolutiva do professor sobre os “trabalhos virtuais” enviado pelos alunos, sugerindo correções de texto e ajustes em questões estéticas e acadêmicas;

7º Ajustes dos trabalhos virtuais por parte dos alunos e nova entrega ao professor;

8º Elaboração dos produtos finais de estudo pelos alunos, com o acompanhamento do professor; 

9º Segunda devolutiva do professor sobre os “trabalhos virtuais”, ajustados pelos alunos, com orientações para como transplantar os conhecimentos estudados e descritos no trabalho virtual para a apresentação do produto final.

Apresentação

10º Apresentação dos produtos finais de estudo dos alunos ao público escolar.

Com relação à execução das etapas descritas, é importante ressaltar que os momentos de estudo, pesquisa e produção de trabalho virtual dos alunos, além das devolutivas do professor, foram planejadas para sua realização fora da aula de História. Já as etapas de organização e orientações, tiveram o planejamento de realização em sala. E, com relação à etapa de produção material, ela foi deixada em livre escolha, para ser realizada dentro ou fora do ambiente escolar, levando-se em consideração a melhor infraestrutura à disposição dos alunos para realização de seus trabalhos. Durante o período das 15 semanas do projeto, nas etapas a serem realizadas fora do ambiente escolar, as aulas de História transcorreram de acordo com o currículo da disciplina, mas sempre buscando aproximação e deixando tempo e espaço disponíveis para orientações acerca dos trabalhos que estavam sendo realizados pelos alunos. 

Tabela de planejamento de projeto
Planilha para organização das etapas e ações do projeto.

No decorrer do projeto, conseguimos identificar erros e acertos entre o planejamento e a realização de cada etapa. Como problemas, podemos citar que, infelizmente, não foram todos os alunos participantes que se envolveram no mesmo nível de responsabilidade e qualidade de pesquisa, estudo e realização do trabalho, gerando assim atrasos no calendário proposto.  Isto se deu principalmente nas etapas de entregas dos trabalhos virtuais, o que refletiu na última etapa, a apresentação ao público escolar, que ficou restrita a apenas um dia na última semana de novembro, para que não causasse impacto negativo na organização final do ano letivo da escola. Além disso, dada a primeira experiência com esta mudança metodológica, o nível de envolvimento e preocupação foi maior na organização e orientação e menor na realização mais ampla de registros – escritos e visuais –, o que precisa ser corrigido em futuras realizações do projeto.

Por outro lado, os acertos foram extremamente positivos, pois os cinco objetivos anteriormente descritos foram atingidos com alto nível de satisfação, com o envolvimento da maioria esmagadora dos participantes, os quais buscaram cumprir as etapas com grande qualidade e responsabilidade, conseguindo se adaptar, juntamente com o professor, a todas as dificuldades que se apresentaram, dado o “ineditismo” da proposta. 

Alunos apresentando maquetes na aula de história.
Alunos apresentando maquetes na aula de história.

Apresentação final de trabalhos a professores e estudantes. Foto: arquivo pessoal.

Dessa forma, a experiência de ter o aluno no centro do aprendizado, e não o conteúdo, foi extremamente gratificante, pois houve produção de conhecimento a partir dos questionamentos, das reflexões e da interação dos estudantes com os temas específicos que eles próprios escolheram, dentro de um tema geral proposto, além de ser enormemente satisfatório trabalhar com uma metodologia que me permitiu orientar os estudos, as pesquisas e um produto final, auxiliando quando surgiam dificuldades e percebendo os avanços em todas as etapas dos processos intelectuais e criativos dos alunos. Por fim, vale destacar que este projeto trouxe a percepção da construção de um processo metodológico que pode ser realizado em outros anos do ensino fundamental II, não apenas com o tema História do Brasil, nem apenas na disciplina de História, mas que desemboque em uma nova relação dos estudantes com o conhecimento, nos quais eles, de fato, assumam o real protagonismo de seu aprendizado.

Referências Bibliográficas

CENTRO DE REFERÊNCIAS EM EDUCAÇÃO INTEGRAL. EMEF Amorim Lima tem o estudante como centro da proposta pedagógica. Disponível em: <https://educacaointegral.org.br/experiencias/proposta-pedagogica-da-emef-amorim-lima/> Acesso em: 20/01/2021

________________________________________________. EMEF Campos Salles transforma currículo e valoriza a autonomia do estudante. Disponível em: <https://educacaointegral.org.br/experiencias/escola-transforma-curriculo-e-valoriza-a-autonomia-do-estudante/> Acesso em 20/01/2021.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1967

____________. Pedagogia da Autonomia. 25ª ed. São Paulo: Paz e Terra. 1996.

PACHECO, José. Aprender em comunidade. 1. ed. São Paulo: Edições SM, 2014.

______________. Escola da Ponte: formação e transformação. 6ª ed. Petrópolis: Editora Vozes. 2014.

______________. Pequeno dicionário das utopias. Rio de Janeiro. Wak Editora. 2009.

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Currículo da Cidade: Ensino Fundamental: História. São Paulo: SME/COPED, 2017.

São Paulo (SP). Secretaria Municipal de Educação. Coordenadoria Pedagógica. Orientações didáticas do currículo da cidade: História. – 2.ed. – São Paulo: SME/COPED, 2019.

brunogomes@relatosescolares.com.br | + posts

Professor na rede municipal de ensino de São Paulo. Bacharel e Licenciado em História e Graduando em Filosofia.

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3 Comentários

  1. Parabéns Professor Bruno!
    É gratificante ver um processo pedagógico envolvente e que permite aos alunos a buscarem o conhecimento e se reconhecerem no processo.
    É muito bom ver essa iniciativa dentro das escolas, já que temos tantas boas teorias e metodologias educacionais que são pouco utilizadas nas salas de aula. O complemento da aula expositiva com essas dinâmicas é essencial para a formação. Entender até a vida como este grande processo de pesquisa, análise, projeto e desenvolvimento já nos coloca em outro patamar.
    Como você diz em seu texto, colocar os alunos como protagonistas do ensino, tem a capacidade de fortalecer o estudante para além da sala de aula.
    Obrigada por dividir a experiência e aguardo ver outras por aqui.

    1. Prezada Thais,

      Agradeço demais seu comentário. De fato, o reconhecimento do aluno em seu próprio processo de aprendizagem, o que possibilita uma educação ativa por parte dos estudantes foi um dos objetivos deste projeto.
      Creio que a própria prática de ensino/aprendizagem nos faz percorrer e testar diferentes métodos, tentando buscar os meios que se adequem aos estudantes, o projeto político pedagógico da equipe escolar e o contexto vivido por todos os atores da comunidade escolar.

      Obrigado pela leitura e reflexão sobre o texto!

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